Desde que me conheço por gente eu vivo aquela famosa crise do "eu não sei o que quero fazer na vida". Isso já me rendeu noites em claro, cobrança da família e dois cursos universitários interrompidos. Tá certo que nunca entendi bem por que alguém TEM que saber o que quer e não pode tentar até descobrir. Foi o que eu fiz, mas olhar pro lado e ver aquela amiga que se saiu do colégio comigo se tornar uma advogada mega realizada ou aquele amigo que vive pra salvar animaizinhos dá uma sensação de "putz, será que um dia eu vou me sentir assim também?".
Eis que, com um empurrãozinho de mamãe, me vejo na faculdade de jornalismo, absorvendo como uma esponjinha tudo o que vejo e leio, maravilhada por finalmente ter achado algo que me dá tanto prazer em fazer.
No meio disso tudo, trabalho com algo que sempre gostei mas nunca achei que daria certo: livros, na minha terceira livraria, dessa vez como estágiária. Dia desses disse para uma amiga que me perguntou como estava o trabalho: "Bah, não existe coisa no mundo mais gostosa do que viver no meio daquele monte de livros". Ela riu e disse um "Só tu mesmo...". Infelizmente, mesmo entre pessoas consideradas "esclarecidas", isso ainda é uma coisa sem objetivo, sem valor. Quer valor maior que ouvir Balzac te murmurando suas críticas jornalísticas, Simone de Beauvoir falando pelas mulheres independentes ou os paraísos artíficiais que Baudelaire visita em suas poesias? (sim, sou mais os franceses)
É no meio disso tudo que convivo com pessoas incríveis e presencio momentos impagáveis. Como no dia em que conheci uma senhorinha de 82 anos, que foi lá levar seu livro de poesias para vendermos. Pensei "que bonitinha, ela resolveu aproveitar até o fim de sua vida, produzindo uns poemas pra passar o tempo". De repente ela começou a declamar uma poesia sobre um sonho que tivera quando criança. Ok, não era um Rimbaud, mas que transformação ela sofreu! De uma velhinha excêntrica passou para uma menina de 12 anos, segurando uma rosa verde entre os dedos. Quando ela terminou me vi arrepiada e com lágrimas nos olhos. Não é todo dia que conhecemos pessoas assim.
Alguns dias depois, no dia dos namorados, estávamos, Fran (solteirona convicta), Mari (que queria terminar com o namorado) e eu (que aproveitava os últimos dias com o meu), conversando quando chega um casal (também na casa dos oitenta anos). Nenhuma de nós estava muito contente com nossas situações, imagina quando ouvimos do senhor com uma voz apaixonada "Essa aqui é a minha ursinha", e ela responde "Sabem o que ele me fez hoje? Me deu uma rosa quando acordei e depois me levou pra um almoço romântico!". Quando eles foram embora nos perguntamos se esse amor pra vida toda existe mesmo. Fran, com seu ceticismo, disse que isso era bobagem, no mínimo o homem era rico e a velhinha estava dando o golpe. Eu e Mari, bobocas, achamos que era um caso raro de pessoas que encontraram a maneira certa de fazer um relacionamento dar certo. Nisso chega o chefe, que conhece o casal: "Ahh, ela é uma figura! Já está no terceiro marido. Daqui a pouco esse morre e ela arruma outro."
Breve momento cara de tacho... Acho que prefiro seguir acreditando.
18 de junho de 2009
15 de junho de 2009
testamento
...
E para ele deixo todo o resto. Meu corpo, que foi só dele por tanto tempo. Minha alma, que nunca o deixará.
Ficam também as lembranças... quantas lembranças! As noites em claro, os passeios na praia, os 738 tipos de beijos e carinhos. Fica a minha cara de felicidade a cada surpresinha que ele me aprontava, quase todos os dias. Os planos, os desejos. Aquele calorzinho que eu sentia quando pensava nele. Tudo o que eu aprendi com ele, tudo que eu o ensinei. A satisfação de ter sido o melhor em tudo. TUDO.
A gratidão por ter me segurado quando eu podia ter ido embora. Também por ter ficado quando deveria ter ido embora. E por ter cuidado de mim como nunca ninguém cuidou.
Fica um amor que foi maior que eu, maior que ele, maior que a vida. Que quem sabe nunca se acabe totalmente.
Fica, acima de tudo, um espaço que ninguém jamais poderá tirar. Que é só dele. E a certeza de que o que ficou aqui dentro eu vou sempre manter vivo.
E para ele deixo todo o resto. Meu corpo, que foi só dele por tanto tempo. Minha alma, que nunca o deixará.
Ficam também as lembranças... quantas lembranças! As noites em claro, os passeios na praia, os 738 tipos de beijos e carinhos. Fica a minha cara de felicidade a cada surpresinha que ele me aprontava, quase todos os dias. Os planos, os desejos. Aquele calorzinho que eu sentia quando pensava nele. Tudo o que eu aprendi com ele, tudo que eu o ensinei. A satisfação de ter sido o melhor em tudo. TUDO.
A gratidão por ter me segurado quando eu podia ter ido embora. Também por ter ficado quando deveria ter ido embora. E por ter cuidado de mim como nunca ninguém cuidou.
Fica um amor que foi maior que eu, maior que ele, maior que a vida. Que quem sabe nunca se acabe totalmente.
Fica, acima de tudo, um espaço que ninguém jamais poderá tirar. Que é só dele. E a certeza de que o que ficou aqui dentro eu vou sempre manter vivo.
14 de junho de 2009
the end
Abriu os olhos ainda sem conseguir enxergar direito. Olhou para o lado: vazio; apenas uma camiseta vermelha em cima do travesseiro. Sentiu uma dor atravessar seu corpo. Tenta lembrar da noite anterior, uma avenida vazia, alguns gritos, os olhos ardendo, aquele rosto hostil. "O que foi que eu fiz?".
Ao sentar na cama a certeza lhe caiu como um tijolo: estava acabado. Pensa no que fazer, tem algumas opções. Nenhuma lhe parece útil. Liga o computador e começa a escrever um email. Droga de tecnologia, os tempos de bater na porta de casa e despejar as palavras que vêm à cabeça eram melhores. Uma frase não tinha nexo com a outra, melhor apagar tudo.
Quem sabe uma volta pela rua... não está tão frio e tem um sol bonito. Caminha um pouco mas logo desiste; tem mais pessoas felizes na rua do que o normal, e isso a irrita hoje mais do que o normal.
Quem sabe ler? Não, Beauvoir não está ajudando. Histórias de guerra menos ainda... desiste de procurar distração. Pensa naqueles que conseguem tirar coisas boas da dor. Ela não consegue, apenas mais dor.
Queria ouvir aquela voz mais uma vez. Ver aquele rosto mais uma vez. Sentir aquele corpo mais uma vez. Sempre se recusou a aceitar a "última vez". Odeia tudo que é definitivo. Talvez por isso nunca aprendeu a lidar com a morte e com epílogos. Precisa de uma porta aberta.
Cheira a camiseta. Precisa dela, daquele conforto. Algo que a prove que não estava louca. Ele existia e esteve ali há poucas horas.
Se foi, mas alguma porta tinha que estar aberta.
Ao sentar na cama a certeza lhe caiu como um tijolo: estava acabado. Pensa no que fazer, tem algumas opções. Nenhuma lhe parece útil. Liga o computador e começa a escrever um email. Droga de tecnologia, os tempos de bater na porta de casa e despejar as palavras que vêm à cabeça eram melhores. Uma frase não tinha nexo com a outra, melhor apagar tudo.
Quem sabe uma volta pela rua... não está tão frio e tem um sol bonito. Caminha um pouco mas logo desiste; tem mais pessoas felizes na rua do que o normal, e isso a irrita hoje mais do que o normal.
Quem sabe ler? Não, Beauvoir não está ajudando. Histórias de guerra menos ainda... desiste de procurar distração. Pensa naqueles que conseguem tirar coisas boas da dor. Ela não consegue, apenas mais dor.
Queria ouvir aquela voz mais uma vez. Ver aquele rosto mais uma vez. Sentir aquele corpo mais uma vez. Sempre se recusou a aceitar a "última vez". Odeia tudo que é definitivo. Talvez por isso nunca aprendeu a lidar com a morte e com epílogos. Precisa de uma porta aberta.
Cheira a camiseta. Precisa dela, daquele conforto. Algo que a prove que não estava louca. Ele existia e esteve ali há poucas horas.
Se foi, mas alguma porta tinha que estar aberta.
take me, i'm yours
Nunca foi minha intenção deixar esse blog meloso, usá-lo pra dizer algo para A ou B. Hoje, lendo o que já escrevi, notei que foi exatamente isso que aconteceu. Paciência.
Os últimos acontecimentos foram decisivos no rumo das coisas. Não sei se é realmente o fim, cada célula do meu corpo quer que não seja, mas tem coisas que minhas células não podem resolver.
734 emails não terminados, palavras agoniadas querendo pular da garganta, "ne me quitte pas" e outros desesperos tocados sem parar, muito vinho... Nada ajuda. Pelo contrário.
Como fazê-lo ver que apesar dos problemas eu o quero mais que tudo? Posso não saber dar o que ele quer, aqueles dois parafusos perdidos fazem falta às vezes, mas algo que encaixa tão bem tem que dar certo!
Eu me rendo, o deixo me transformar no que ele quiser. Não sou mais minha.
Os últimos acontecimentos foram decisivos no rumo das coisas. Não sei se é realmente o fim, cada célula do meu corpo quer que não seja, mas tem coisas que minhas células não podem resolver.
734 emails não terminados, palavras agoniadas querendo pular da garganta, "ne me quitte pas" e outros desesperos tocados sem parar, muito vinho... Nada ajuda. Pelo contrário.
Como fazê-lo ver que apesar dos problemas eu o quero mais que tudo? Posso não saber dar o que ele quer, aqueles dois parafusos perdidos fazem falta às vezes, mas algo que encaixa tão bem tem que dar certo!
Eu me rendo, o deixo me transformar no que ele quiser. Não sou mais minha.
4 de junho de 2009
18 de maio de 2009
o espelho
Às vezes penso na imagem que as pessoas passam. "ah não, ele é louco demais", "se ela fosse normal jamais faria isso".
Pois nos últimos tempos conheci várias dessas pessoas de quem falam assim. Dizem que sou uma delas. Quem sabe? Não me importaria de ser. Sou bem confortável dentro de mim.
Uma dessas figuras apareceu em uma situação bem incomum, em um lugar mais maluco ainda - literalmente uma loucura. Por fora é apenas mais um cara de vinte e poucos anos, desprendido e dono de si, que quem sabe tenha levado a inconsequencia adolescente longe demais. Em alguns minutos de conversa aflora um menino que só falta perguntar "você quer ser meu amigo?". Depois de um tempo eu não resisti e me vi dizendo "sim, eu quero! vamos pro campinho!". E foi aí que começou...
Hoje enquanto ouvia suas histórias loucas e tentativas filosóficas me peguei pensando: onde as pessoas se perdem? Em que ponto elas resolvem ser "normais", seguir a regra e sufocar a vontade de fazer guerra de bexiguinha em pleno Ibirapuera? Tá certo que temos que respeitar certos rituais, aceitar que o tempo passa, as coisas mudam, nós mudamos e não podemos ser inconsequentes pra sempre. Mas até que ponto?
É por isso que enquanto o via pelo visor da câmera tentando fazer uma pipa voar, eu senti que ali estava uma pessoa capaz de se salvar da razão. E me senti livre. Livre da cobrança, de juízos e tentativas frustradas.
Ele era eu há pouco tempo.
Pois nos últimos tempos conheci várias dessas pessoas de quem falam assim. Dizem que sou uma delas. Quem sabe? Não me importaria de ser. Sou bem confortável dentro de mim.
Uma dessas figuras apareceu em uma situação bem incomum, em um lugar mais maluco ainda - literalmente uma loucura. Por fora é apenas mais um cara de vinte e poucos anos, desprendido e dono de si, que quem sabe tenha levado a inconsequencia adolescente longe demais. Em alguns minutos de conversa aflora um menino que só falta perguntar "você quer ser meu amigo?". Depois de um tempo eu não resisti e me vi dizendo "sim, eu quero! vamos pro campinho!". E foi aí que começou...
Hoje enquanto ouvia suas histórias loucas e tentativas filosóficas me peguei pensando: onde as pessoas se perdem? Em que ponto elas resolvem ser "normais", seguir a regra e sufocar a vontade de fazer guerra de bexiguinha em pleno Ibirapuera? Tá certo que temos que respeitar certos rituais, aceitar que o tempo passa, as coisas mudam, nós mudamos e não podemos ser inconsequentes pra sempre. Mas até que ponto?
É por isso que enquanto o via pelo visor da câmera tentando fazer uma pipa voar, eu senti que ali estava uma pessoa capaz de se salvar da razão. E me senti livre. Livre da cobrança, de juízos e tentativas frustradas.
Ele era eu há pouco tempo.
15 de maio de 2009
sobre essas pessoas
Para quem não tem amigos, digo uma coisa: tu tá f***!
Dia desses parei pra pensar nessas pessoas que a vida foi colocando no meu caminho. De uns eu me perdi, de outros eu não desgrudo, e ainda tem aqueles que volta e meia cruzam a minha estrada, ficam um pouco e depois se vão, até o próximo cruzamento.
Engana-se quem pensa que amigo de verdade tem que estar sempre por perto. Os seres humanos (pelo menos os interessantes) são inconstantes. Nem sempre são compatíveis em todas as suas fases. É como o amor. Quais são as probabilidades de o namorado que se tem com 15 anos dar certo quando se tem 25? Tem gente que só dá certo na nossa vida em determinadas épocas.
Eu me considero uma pessoa de sorte. Muita sorte até, pois admito que não sou uma boa cultivadora de amigos. Se não fosse por esses loucos que vão atrás de mim quando eu sumo, não ficam brabos quando eu não retorno ligações ou quando dou eventuais bolos... Não tenho a menor pretensão de ter um milhão de amigos. Admito que sou chata de tão seletiva. Mas não me arrependo. Tô com eles e não abro!
Lembra aquele álbum "amar é?"? Pois devia exister um "amigo é":
Amigo é companhia pra um cinema no fim de tarde. Amigo te liga de madrugada pra chorar as pitangas. Amigo te ouve chorar as pitangas de madrugada. Amigo passa horas falando besteira numa mesa de bar. Ou no msn. Ou no telefone. Whatever. Amigo vai contigo a festas malucas nas noites de sábado. Amigo tem sempre aquele conselho que tu sabe que não vai seguir, mas que te dão segurança. Amigo te cuida quando tu quase tem uma OD, e no outro dia te dá a maior bronca. Amigo está no teu lado nas indiadas. Amigo ri contigo das indiadas passadas. Amigo releva mau humor. Amigo encara praia no inverno.
Amigo sabe dos teus podres e ainda assim faz tudo isso.
Todo mundo precisa de um Wilson.
Dia desses parei pra pensar nessas pessoas que a vida foi colocando no meu caminho. De uns eu me perdi, de outros eu não desgrudo, e ainda tem aqueles que volta e meia cruzam a minha estrada, ficam um pouco e depois se vão, até o próximo cruzamento.
Engana-se quem pensa que amigo de verdade tem que estar sempre por perto. Os seres humanos (pelo menos os interessantes) são inconstantes. Nem sempre são compatíveis em todas as suas fases. É como o amor. Quais são as probabilidades de o namorado que se tem com 15 anos dar certo quando se tem 25? Tem gente que só dá certo na nossa vida em determinadas épocas.
Eu me considero uma pessoa de sorte. Muita sorte até, pois admito que não sou uma boa cultivadora de amigos. Se não fosse por esses loucos que vão atrás de mim quando eu sumo, não ficam brabos quando eu não retorno ligações ou quando dou eventuais bolos... Não tenho a menor pretensão de ter um milhão de amigos. Admito que sou chata de tão seletiva. Mas não me arrependo. Tô com eles e não abro!
Lembra aquele álbum "amar é?"? Pois devia exister um "amigo é":
Amigo é companhia pra um cinema no fim de tarde. Amigo te liga de madrugada pra chorar as pitangas. Amigo te ouve chorar as pitangas de madrugada. Amigo passa horas falando besteira numa mesa de bar. Ou no msn. Ou no telefone. Whatever. Amigo vai contigo a festas malucas nas noites de sábado. Amigo tem sempre aquele conselho que tu sabe que não vai seguir, mas que te dão segurança. Amigo te cuida quando tu quase tem uma OD, e no outro dia te dá a maior bronca. Amigo está no teu lado nas indiadas. Amigo ri contigo das indiadas passadas. Amigo releva mau humor. Amigo encara praia no inverno.
Amigo sabe dos teus podres e ainda assim faz tudo isso.
Todo mundo precisa de um Wilson.
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